O sentido espiritual da oração em segredo à luz do Evangelho e da Doutrina Espírita
“Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”
Mateus 6:6
Entre os ensinamentos apresentados por Jesus no Sermão da Montanha, alguns parecem, à primeira leitura, conter apenas uma orientação prática. Entretanto, quando examinados dentro do contexto em que foram pronunciados e relacionados aos princípios espirituais ensinados pelo próprio Cristo, revelam uma profundidade muito maior.
A recomendação para entrar no quarto, fechar a porta e orar ao Pai em segredo é um desses ensinamentos. Seria possível entendê-la simplesmente como um conselho para que a pessoa procurasse um ambiente silencioso antes de fazer sua prece. O recolhimento físico realmente pode favorecer a concentração e ajudar o pensamento a se desligar das preocupações imediatas. Contudo, Jesus não estava estabelecendo uma regra sobre o lugar apropriado para a oração. A questão fundamental de sua orientação está na intimidade, na sinceridade e na finalidade da prece.
O contexto deixa isso claro. Jesus estava ensinando sobre a necessidade de uma religiosidade que não dependesse da aprovação dos homens. Havia pessoas que transformavam suas práticas religiosas em demonstrações públicas de virtude. A preocupação deixava de estar na relação com Deus e passava a estar na impressão produzida sobre aqueles que observavam.
Ao recomendar que o discípulo entrasse em seu quarto e fechasse a porta, Jesus desloca a atenção da aparência para a consciência. A oração verdadeira não necessita de espectadores porque sua finalidade não é convencer os outros de que somos bons, piedosos ou espiritualmente elevados. Ela estabelece uma relação que acontece no lugar mais reservado que existe em nós: a própria intimidade do Espírito.
É justamente nessa perspectiva que a Doutrina Espírita oferece elementos importantes para aprofundar o ensinamento.
O ensinamento de Jesus precisa ser compreendido dentro do seu contexto
O capítulo 6 do Evangelho de Mateus apresenta uma sequência de ensinamentos relacionados às práticas religiosas. Jesus fala sobre a esmola, a oração e o jejum e, em todos esses assuntos, existe uma preocupação comum: a diferença entre aquilo que fazemos por verdadeira convicção e aquilo que fazemos para sermos vistos.
Essa distinção é fundamental para compreender Mateus 6:6.
Jesus não condenava a prática religiosa realizada diante de outras pessoas. Tampouco ensinava que uma oração coletiva fosse menos digna do que uma oração individual. O próprio Evangelho registra momentos em que Ele orou na presença dos discípulos e de outras pessoas. Além disso, o Cristianismo sempre conheceu a oração comunitária.
O que Jesus condenava era a utilização da religião como instrumento de exaltação pessoal.
Uma pessoa poderia orar em público com profunda sinceridade, sem qualquer desejo de exibição. Outra poderia recolher-se sozinha em um quarto e continuar pensando apenas na imagem que desejava transmitir aos outros. Portanto, não é a presença ou a ausência de testemunhas que determina a qualidade espiritual da oração.
O verdadeiro problema está na intenção.
Essa observação é particularmente importante para nós porque a necessidade de reconhecimento não desaparece simplesmente porque alguém passou a frequentar uma instituição religiosa. Ela pode assumir formas mais discretas. Às vezes, inclusive, pode se esconder atrás de uma aparência de humildade.
É possível desejar ser reconhecido por aquilo que fazemos em nome da fé.
Jesus propõe justamente o contrário: que exista uma dimensão da nossa relação com Deus que não dependa do reconhecimento de ninguém.
“Entra no teu quarto”: uma orientação que ultrapassa o lugar físico
O quarto mencionado por Jesus pode ser compreendido literalmente. Procurar um ambiente tranquilo, onde não sejamos interrompidos, é uma prática útil para quem deseja concentrar-se na oração. A agitação do ambiente, o excesso de ruído e as interrupções constantes dificultam o recolhimento.
Entretanto, permanecer apenas nessa interpretação significa não alcançar a dimensão espiritual da passagem.
O quarto também pode ser entendido como uma representação da intimidade do ser.
Quando Jesus diz “entra no teu quarto”, podemos compreender que Ele está convidando o homem a interromper, ainda que por alguns instantes, sua preocupação exclusiva com aquilo que acontece fora de si e voltar-se para o que acontece dentro de si.
Essa tarefa é mais difícil do que parece.
Uma pessoa pode fechar a porta de um quarto e continuar completamente envolvida com os acontecimentos exteriores. Pode estar fisicamente sozinha e, ao mesmo tempo, mentalmente acompanhada por preocupações, ressentimentos, desejos, lembranças e expectativas.
O silêncio exterior não produz automaticamente o silêncio interior.
É nesse ponto que a recomendação de Jesus ganha profundidade. O recolhimento verdadeiro não consiste simplesmente em retirar o corpo do movimento do mundo. Consiste em proporcionar ao Espírito uma oportunidade de observar a própria condição.
Quando alguém se recolhe sinceramente para orar, pode descobrir que está muito mais preocupado do que imaginava, que determinada mágoa ainda permanece, que certa situação desperta revolta ou que uma preocupação tomou espaço excessivo em sua mente.
A oração, nesse sentido, também se torna um momento de autoconhecimento.
O quarto como símbolo da consciência
A Doutrina Espírita considera o ser humano essencialmente como um Espírito imortal. A existência corporal é uma etapa de sua caminhada, e a vida terrestre oferece oportunidades para o desenvolvimento das faculdades morais e intelectuais.
Essa concepção modifica a maneira como podemos interpretar o “quarto” mencionado por Jesus.
O quarto pode representar aquele espaço interior em que o Espírito se recolhe para pensar sobre sua própria existência. Não se trata de uma fuga da realidade material, mas de uma mudança temporária de perspectiva.
Durante grande parte do dia, nossa atenção está voltada para aquilo que precisamos resolver. Trabalhamos, conversamos, tomamos decisões, enfrentamos problemas, lidamos com outras pessoas e reagimos às circunstâncias. Existe, portanto, uma tendência natural de viver predominantemente para fora.
A oração cria uma interrupção nesse movimento.
Durante alguns momentos, a pergunta deixa de ser apenas “o que está acontecendo comigo?” e passa a ser também “como estou reagindo ao que está acontecendo comigo?”.
Essa segunda pergunta possui enorme importância espiritual.
Duas pessoas podem passar pela mesma dificuldade e reagir de maneiras completamente diferentes. Uma pode permitir que a experiência desperte revolta permanente. Outra pode procurar compreender o que a situação está ensinando. Uma pode responder ao sofrimento com agressividade. Outra pode esforçar-se para não reproduzir sobre os demais a dor que está sentindo.
A circunstância externa é semelhante; a resposta espiritual é diferente.
Por isso, a oração não deve ser compreendida somente como um pedido para que Deus altere as circunstâncias. Ela pode ser o momento em que buscamos condições interiores para enfrentá-las de maneira mais equilibrada.
“Fechada a porta”: o que precisamos deixar do lado de fora?
A imagem da porta fechada é particularmente significativa.
Quando alguém fecha uma porta, cria uma separação entre dois ambientes. No sentido espiritual, podemos compreender essa separação como uma pausa voluntária em relação ao excesso de estímulos que normalmente ocupa nossa consciência.
Isso não significa rejeitar o mundo.
Significa não permitir que o mundo ocupe todos os espaços da nossa vida interior.
O homem contemporâneo possui inúmeras possibilidades de comunicação, mas nem sempre dispõe de momentos verdadeiros de recolhimento. Recebemos informações continuamente, acompanhamos acontecimentos distantes, participamos de conversas mesmo quando estamos fisicamente sozinhos e frequentemente carregamos para dentro de nossos momentos de descanso as preocupações que acumulamos durante o dia.
Nesse cenário, o ensinamento de Jesus adquire uma atualidade evidente.
Fechar a porta pode significar reservar um período em que não estaremos preocupados com aquilo que os outros pensam, com as discussões que acontecem fora de nós ou com aquilo que ainda precisamos resolver.
Por alguns instantes, o Espírito simplesmente se recolhe.
Mas existe uma segunda porta, mais difícil de fechar: a porta das próprias inquietações.
Não basta afastar o telefone, interromper as conversas ou encontrar um lugar silencioso. Precisamos aprender, gradualmente, a não permitir que toda preocupação continue comandando nosso pensamento durante a oração.
Esse exercício não acontece imediatamente. A mente dispersa é natural. O objetivo não é alcançar, de uma hora para outra, uma concentração perfeita, mas aprender pouco a pouco a direcionar novamente o pensamento quando ele se afasta.
A oração, portanto, também é um exercício de disciplina mental.
“Orarás a teu Pai”: a natureza da relação com Deus
Jesus utiliza uma expressão que merece atenção especial: “a teu Pai”.
Ele não apresenta Deus simplesmente como uma força distante à qual devemos recorrer em momentos de dificuldade. A imagem do Pai estabelece uma relação de confiança e aproximação.
Para o Espiritismo, Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas, infinitamente justo e bom. Essa compreensão possui consequências importantes para a maneira como entendemos a oração.
Se Deus é infinitamente justo e bom, a prece não pode ser entendida como uma tentativa de convencê-Lo a abandonar Sua justiça para atender a um interesse particular.
Também não faria sentido imaginar que Deus precise ser informado sobre nossas necessidades.
O Criador conhece aquilo que vivemos.
A oração tem outra finalidade.
Ela permite que o Espírito se dirija conscientemente a Deus, reconheça sua dependência diante das leis divinas, peça auxílio, agradeça, busque forças e procure ajustar sua própria vontade aos princípios do bem.
Essa perspectiva muda completamente a relação entre pedido e resposta.
Não estamos diante de uma negociação.
Estamos diante de uma relação espiritual.
Pedir não é errado; transformar o pedido em exigência é que desvirtua a prece
A Doutrina Espírita não condena o ato de pedir.
Podemos pedir proteção, saúde, equilíbrio, auxílio para uma pessoa querida, força diante de uma dificuldade ou esclarecimento para uma decisão.
O problema aparece quando a oração se transforma em exigência.
Existe uma diferença entre dizer:
“Senhor, se for possível, auxilia-me nesta dificuldade e dá-me forças para enfrentá-la.”
e imaginar:
“Eu fiz minha oração, portanto preciso receber exatamente aquilo que pedi.”
A primeira atitude reconhece a existência de uma realidade maior do que nossa vontade individual.
A segunda transforma a oração em uma tentativa de fazer prevalecer nossa vontade sobre a ordem divina.
O Espiritismo ensina a confiar na Providência sem abandonar a responsabilidade pessoal.
Quando pedimos auxílio, devemos também perguntar o que está ao nosso alcance fazer.
A oração não substitui o trabalho.
Quem pede uma oportunidade precisa estar disposto a aproveitá-la. Quem pede reconciliação precisa estar disposto a rever suas atitudes. Quem pede paciência precisa aceitar o esforço necessário para controlar a própria irritação.
A prece prepara o Espírito para agir, mas não elimina a necessidade da ação.
“Que está em secreto”: a intimidade entre o Espírito e Deus
A expressão “em secreto” não significa que Deus esteja escondido em algum lugar.
Jesus está ensinando que a relação mais íntima com o Pai não depende de manifestações exteriores.
Deus não precisa de espetáculo.
Não precisamos construir diante dos outros uma imagem de espiritualidade.
O valor da oração não está na impressão que ela produz em quem escuta, mas no estado íntimo de quem ora.
É justamente por isso que o ensinamento possui relação tão direta com a reforma íntima.
Quando estamos sozinhos diante de Deus, podemos reconhecer aquilo que ainda não conseguimos transformar.
Uma pessoa pode admitir:
“Eu ainda guardo ressentimento.”
Outra pode reconhecer:
“Tenho medo do futuro.”
Alguém pode dizer:
“Não consigo compreender por que isso aconteceu.”
Outra pessoa talvez precise admitir:
“Estou pedindo que alguém mude, mas ainda não examinei minha própria maneira de agir.”
Essas confissões não precisam ser pronunciadas diante de ninguém.
O Pai que está em secreto conhece o que existe em nossa intimidade.
A oração torna-se, assim, um espaço de sinceridade.
O Deus que vê em secreto e a importância da intenção
Quando Jesus afirma que o Pai “vê em secreto”, Ele apresenta uma ideia que possui consequências morais profundas.
Os seres humanos observam aquilo que fazemos exteriormente. Deus conhece também aquilo que está por trás da ação.
A mesma atitude pode nascer de intenções diferentes.
Uma pessoa pode fazer uma doação porque realmente deseja aliviar o sofrimento de alguém. Outra pode realizar a mesma doação principalmente para ser reconhecida.
Exteriormente, os dois gestos podem parecer iguais.
Interiormente, não são.
A Doutrina Espírita valoriza a intenção porque a evolução do Espírito não consiste apenas em modificar comportamentos visíveis. O objetivo é transformar gradualmente os sentimentos e as disposições morais.
Esse princípio também explica por que Jesus insiste no secreto.
Quando não existem espectadores, desaparece boa parte da motivação relacionada à aparência.
O indivíduo fica diante daquilo que realmente pensa e sente.
É nesse momento que começa um trabalho espiritual mais honesto.
A oração como oportunidade de autoconhecimento
Frequentemente pensamos na oração como um momento em que falamos com Deus.
Existe, porém, outro movimento acontecendo simultaneamente: começamos a ouvir a nós mesmos.
Ao formular mentalmente aquilo que sentimos, percebemos coisas que permaneciam confusas.
Uma preocupação pode revelar-se exagerada.
Uma revolta pode esconder orgulho ferido.
Uma tristeza pode estar associada a uma expectativa que não foi satisfeita.
Um conflito pode revelar a dificuldade que temos de aceitar opiniões diferentes.
A oração não resolve automaticamente essas questões, mas pode colocá-las diante da consciência.
Essa função da prece é extremamente importante para quem compreende a existência como processo de evolução.
Não podemos transformar aquilo que não reconhecemos.
O autoconhecimento não significa ficar permanentemente concentrado nos próprios problemas. Significa perceber com honestidade os mecanismos interiores que influenciam nossas escolhas.
Nesse sentido, o quarto de Jesus pode ser entendido como um lugar simbólico de encontro com a própria realidade espiritual.
A oração e a reforma íntima
No Espiritismo, a reforma íntima não deve ser confundida com a construção de uma aparência de perfeição.
Ninguém precisa apresentar-se como alguém que já venceu todas as suas imperfeições.
O trabalho consiste em reconhecê-las e esforçar-se para superá-las.
A oração pode colaborar com esse processo quando deixa de ser apenas um pedido de auxílio externo e passa a incluir uma disposição concreta de mudança.
Se alguém pede a Deus que o ajude a ser mais paciente, precisa estar disposto a observar a própria impaciência.
Quando pede ajuda para perdoar, precisa reconhecer que o ressentimento ainda existe.
Se deseja ser menos orgulhoso, deverá aprender a identificar as situações em que sua necessidade de ter razão interfere nas relações.
A prece pode oferecer força e inspiração, mas o trabalho moral continua sendo responsabilidade do próprio Espírito.
Essa compreensão impede que a oração seja utilizada como fuga das próprias obrigações.
O que significa a recompensa prometida por Jesus?
A afirmação de que Deus “recompensará” aquele que ora em segredo também precisa ser analisada com cuidado.
Se entendermos essa recompensa como uma garantia de que receberemos aquilo que pedirmos, transformaremos o ensinamento em uma espécie de mecanismo de troca. Essa interpretação não corresponde ao conjunto dos ensinamentos de Jesus nem à compreensão espírita da Providência.
A recompensa pode manifestar-se de maneiras que não correspondem às nossas expectativas.
Uma pessoa pede que determinada dificuldade desapareça e encontra forças para enfrentá-la.
Outra pede uma resposta imediata e recebe, em vez disso, uma oportunidade de amadurecer.
Alguém pede que outra pessoa modifique seu comportamento e começa a compreender que também precisa rever sua própria maneira de agir.
Isso não significa que toda dificuldade seja desejável ou que devamos permanecer passivos diante do sofrimento. Significa apenas que a resposta espiritual não pode ser reduzida à realização de desejos individuais.
Para o Espírito imortal, o resultado mais importante de uma experiência pode estar justamente na transformação que ela produz.
A oração pode modificar a maneira como enfrentamos uma prova
A Doutrina Espírita oferece uma compreensão particular das dificuldades da existência terrestre. A vida corporal está relacionada às necessidades evolutivas do Espírito, às consequências de suas escolhas e às experiências que contribuem para seu aprendizado.
Diante disso, a oração assume uma função que vai além de pedir a remoção das dificuldades.
Quando enfrentamos uma situação que não podemos modificar imediatamente, a prece pode ajudar-nos a encontrar equilíbrio para atravessá-la.
Isso é diferente de conformismo.
Conformar-se passivamente seria abandonar a possibilidade de agir.
Aceitar espiritualmente uma situação significa reconhecer sua existência sem permitir que a revolta destrua nossa capacidade de pensar e agir.
A pessoa pode aceitar que está diante de determinada realidade e, ao mesmo tempo, procurar todos os meios legítimos para modificá-la.
A oração ajuda justamente a impedir que a dificuldade domine completamente o Espírito.
A ação dos bons Espíritos e a sintonia mental
A Doutrina Espírita também considera a existência de relações entre o mundo corporal e o mundo espiritual. Somos influenciados e podemos influenciar, e nossos pensamentos desempenham papel importante nesse intercâmbio.
A prece sincera, quando acompanhada de uma disposição real para o bem, favorece uma condição íntima mais receptiva à influência dos Espíritos superiores.
Isso não deve ser interpretado de maneira supersticiosa.
Não se trata de imaginar que determinadas palavras possuem poder automático ou que basta repetir uma fórmula para produzir um resultado.
A questão está na sintonia.
Pensamentos de ódio, vingança e revolta produzem uma disposição espiritual muito diferente daquela estabelecida por pensamentos de confiança, humildade e desejo sincero de melhorar.
Quando uma pessoa ora buscando equilíbrio, pode tornar-se mais receptiva a inspirações que já estavam dificultadas pela própria agitação mental.
Às vezes, o auxílio que procuramos não chega como fenômeno extraordinário. Pode aparecer como uma ideia mais clara, uma decisão equilibrada, uma palavra recebida no momento certo ou simplesmente uma força interior que antes parecia inexistente.
O discernimento continua sendo necessário. Nem toda impressão deve ser atribuída à ação espiritual. O Espiritismo não recomenda abandonar a razão.
O pensamento é mais importante do que a aparência da oração
A passagem de Mateus 6:6 também permite compreender por que Jesus não coloca a ênfase na quantidade de palavras.
Uma oração pode ser longa e, ainda assim, permanecer superficial.
Outra pode conter poucas palavras e expressar uma profunda disposição espiritual.
O que diferencia as duas não é o tamanho da oração.
É o pensamento que a acompanha.
Allan Kardec desenvolve essa questão em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo XXVII, ao estudar a eficácia da prece, a transmissão do pensamento e as condições que dão sentido à oração.
Essa compreensão é importante porque impede que a oração seja transformada em repetição mecânica.
Não há problema em utilizar uma oração conhecida. O problema surge quando os lábios pronunciam palavras que a consciência não acompanha.
Uma prece verdadeiramente compreendida pode transformar-se em instrumento de reflexão.
Quando dizemos “seja feita a vossa vontade”, por exemplo, estamos expressando uma disposição que precisa ser examinada. Estamos realmente preparados para aceitar a vontade divina quando ela não coincide com nossos planos?
Quando pedimos perdão pelas nossas faltas, estamos igualmente dispostos a perdoar?
Quando solicitamos o pão de cada dia, compreendemos que estamos pedindo o necessário e não a satisfação ilimitada dos desejos?
O valor espiritual da oração cresce quando compreendemos aquilo que estamos dizendo.
O Pai-Nosso ajuda a compreender a oração ensinada por Jesus
Não é por acaso que, no mesmo contexto em que fala sobre a oração em segredo, Jesus apresenta o Pai-Nosso.
A estrutura dessa oração revela que a relação com Deus não deve estar centrada exclusivamente em pedidos pessoais.
A oração começa voltando-se para Deus e para a santificação de Seu nome. Em seguida, pede que Seu reino venha e que Sua vontade seja feita. Somente depois aparecem as necessidades humanas mais imediatas.
A ordem é significativa.
Jesus não ensina o homem a colocar sua vontade individual como centro de tudo.
Ele ensina a criatura a reconhecer uma realidade superior à própria vontade.
Depois vêm o alimento necessário, o perdão das faltas e o auxílio diante das tentações.
Existe, portanto, uma dimensão moral na oração.
Não basta pedir aquilo que queremos.
Precisamos aprender a desejar aquilo que é compatível com o bem.
Kardec analisa profundamente o Pai-Nosso no capítulo XXVIII de O Evangelho segundo o Espiritismo, mostrando o alcance das diferentes partes dessa oração e propondo explicações que ajudam a compreendê-la para além da simples repetição.
“Seja feita a vossa vontade”: uma das partes mais difíceis da oração
Poucas expressões revelam tão claramente a diferença entre oração superficial e oração consciente quanto essa.
Dizer “seja feita a vossa vontade” é relativamente fácil quando os acontecimentos correspondem aos nossos desejos.
A dificuldade aparece quando não correspondem.
Se pedimos algo e não recebemos, conseguimos continuar confiando?
Quando uma porta se fecha, conseguimos considerar que talvez exista uma razão que ainda não compreendemos?
Quando uma experiência exige paciência, conseguimos pedir forças em vez de apenas reclamar de sua duração?
A verdadeira confiança em Deus não se mede somente quando tudo acontece como desejamos.
Ela também se revela quando precisamos continuar caminhando sem possuir todas as respostas.
Isso não significa considerar bom tudo aquilo que acontece. Significa reconhecer os limites da nossa compreensão.
Para o Espírito que acredita na imortalidade e na justiça divina, uma existência não pode ser avaliada apenas pelos acontecimentos imediatos.
O quarto não é uma fuga do mundo
Uma interpretação equivocada poderia transformar esse ensinamento em um convite ao isolamento.
Jesus, porém, não manda o homem abandonar suas responsabilidades. Ele manda que entre no quarto, ore e depois continue sua caminhada.
O recolhimento é temporário.
Sua finalidade é preparar o Espírito para voltar à convivência.
Essa é uma característica importante da espiritualidade cristã.
A pessoa não deve sair da oração menos interessada nas necessidades dos outros. Deve sair mais consciente de sua responsabilidade diante deles.
Quem ora pedindo paciência terá de exercitá-la na convivência.
Quem pede compreensão precisará demonstrá-la quando encontrar opiniões diferentes das suas.
Quem pede perdão precisará colocar o perdão em prática.
Quem pede auxílio para vencer determinado defeito terá de aproveitar as oportunidades que a vida oferece para trabalhar essa imperfeição.
A oração acontece em silêncio, mas seus efeitos precisam aparecer na existência cotidiana.
A verdadeira prova da oração está depois dela
É possível avaliar a oração não apenas pelo que sentimos enquanto oramos, mas também pelo que fazemos depois.
Se uma pessoa termina uma prece profundamente emocionada e, pouco tempo depois, volta a alimentar deliberadamente o mesmo ressentimento, talvez seja necessário compreender que a emoção não produziu ainda uma transformação.
Em contrapartida, alguém pode terminar sua oração sem experimentar qualquer sensação extraordinária e, no dia seguinte, conseguir controlar uma reação que antes não controlava.
Do ponto de vista espiritual, essa segunda mudança pode ser muito mais significativa.
O progresso nem sempre é acompanhado de sentimentos intensos.
Muitas vezes ele aparece em atitudes discretas.
Uma palavra que decidimos não dizer.
Uma resposta agressiva que conseguimos evitar.
Um pedido de desculpas que antes nosso orgulho impediria.
Uma mágoa que começamos a deixar para trás.
Uma atitude correta realizada sem que ninguém saiba.
Esses pequenos movimentos revelam que a oração começou a ultrapassar o campo das palavras.
O quarto onde ninguém nos vê
Talvez uma das perguntas mais importantes que essa passagem possa nos fazer seja:
Quem somos quando ninguém está olhando?
A resposta possui relação direta com nosso estado espiritual.
Quando existe público, podemos ser influenciados pelo desejo de aprovação. Quando estamos sozinhos, nossas verdadeiras disposições aparecem com maior clareza.
Como pensamos sobre alguém que nos feriu quando ninguém está presente?
Como reagimos quando podemos fazer algo errado sem sermos descobertos?
Continuamos honestos quando a desonestidade poderia nos beneficiar?
Fazemos o bem quando não existe qualquer possibilidade de reconhecimento?
É nesse sentido que “o secreto” possui grande importância.
Deus não precisa de nossa imagem pública.
O que importa é a realidade espiritual que estamos construindo.
A oração em secreto nos lembra disso porque nos coloca diante de Deus sem a presença de uma plateia.
A prece como diálogo, não como monólogo
Uma das dificuldades da oração está em aprendermos a falar e também a silenciar.
Muitas vezes utilizamos a oração apenas para pedir.
Falamos sobre aquilo que queremos, aquilo que nos preocupa e aquilo que desejamos que aconteça.
Existe valor nisso, mas a oração pode ser mais ampla.
Depois de falar, precisamos também criar espaço para refletir.
Não devemos esperar necessariamente ouvir uma voz ou receber uma mensagem extraordinária. O silêncio da oração não significa que Deus necessariamente nos dará uma resposta perceptível naquele momento.
Pode acontecer simplesmente de, ao diminuir a agitação mental, conseguirmos enxergar melhor uma situação que antes parecia confusa.
A oração pode favorecer a reflexão.
Pode ajudar-nos a organizar pensamentos.
Pode permitir que uma decisão seja analisada com mais serenidade.
Pode fortalecer nossa disposição para aceitar uma verdade que já conhecíamos, mas não queríamos admitir.
Nesse sentido, o silêncio também faz parte da prece.
Quando Deus não muda a circunstância, mas muda o Espírito diante dela
Existem momentos em que pedimos insistentemente que uma determinada realidade seja modificada e, apesar disso, ela permanece.
É natural que surja a pergunta sobre a eficácia da oração.
A resposta espírita não está em afirmar que toda oração produzirá exatamente o resultado desejado.
A prece não suspende as leis divinas.
Ela não elimina automaticamente as consequências das escolhas humanas nem transforma toda dificuldade em algo que deve desaparecer.
Seu efeito pode ser percebido em outro nível.
O Espírito pode tornar-se mais forte.
Pode compreender melhor.
Pode receber inspiração para tomar uma decisão.
Pode encontrar apoio espiritual.
Pode adquirir serenidade para atravessar aquilo que não pode mudar imediatamente.
Nesse caso, a situação externa permanece, mas o indivíduo que a enfrenta já não é exatamente o mesmo.
Essa mudança pode ser a verdadeira resposta da prece.
Entrar no quarto para voltar à vida
O ensinamento de Jesus não termina quando a porta é fechada.
Existe um movimento completo:
entrar, recolher-se, orar e voltar.
Essa sequência possui um significado espiritual importante.
Precisamos, em determinados momentos, afastar-nos do excesso de estímulos para recuperar a capacidade de pensar.
Precisamos olhar para dentro para perceber nossas disposições.
Precisamos dirigir-nos a Deus para buscar orientação e força.
Depois precisamos voltar à vida e colocar em prática aquilo que compreendemos.
O quarto, portanto, não representa o abandono do mundo.
Representa uma pausa necessária para que o mundo não determine sozinho aquilo que somos.
O Espírito que se recolhe para orar deve retornar à convivência mais consciente de suas responsabilidades.
Como transformar esse ensinamento em prática espiritual
A passagem de Mateus pode ser aplicada de maneira bastante concreta na vida diária.
Um momento de oração pode começar com alguns minutos de silêncio, não como uma obrigação formal, mas como uma tentativa de reduzir a agitação mental.
Em seguida, podemos reconhecer diante de Deus aquilo que realmente estamos vivendo. Em vez de utilizar somente palavras genéricas, podemos apresentar nossas dificuldades com sinceridade.
Depois dos pedidos, é importante dedicar algum tempo à reflexão.
Podemos perguntar a nós mesmos qual é a nossa responsabilidade naquela situação, o que precisamos modificar e que atitude seria mais coerente com os ensinamentos de Jesus.
Agradecer também possui importância. A gratidão não significa considerar agradável tudo aquilo que acontece, mas reconhecer os recursos que recebemos para enfrentar a existência: oportunidades, pessoas, conhecimentos, experiências e possibilidades de crescimento.
Finalmente, a oração pode terminar com um propósito concreto.
Não basta pedir “ajuda-me a ser melhor”.
É mais útil sair da oração sabendo, por exemplo, que naquele dia faremos esforço para não responder agressivamente a determinada pessoa, para controlar uma reclamação, para pedir desculpas ou para interromper um pensamento de ressentimento.
A oração torna-se mais fecunda quando estabelece uma ligação entre pensamento e ação.
Uma leitura espírita de cada parte do ensinamento
A passagem de Mateus 6:6 pode ser compreendida, portanto, como um ensinamento composto de várias etapas.
“Tu, porém…” chama a atenção para uma atitude pessoal. Jesus não está descrevendo simplesmente um costume religioso coletivo; está falando diretamente ao indivíduo e à sua consciência.
“Quando orares…” mostra que a oração deve fazer parte da relação consciente com Deus. Não se trata de uma ação destinada exclusivamente a situações de emergência.
“Entra no teu quarto…” indica a necessidade de recolhimento, tanto físico quanto mental.
“E, fechada a porta…” representa a interrupção temporária das preocupações exteriores e, sobretudo, da necessidade de aprovação.
“Orarás a teu Pai…” estabelece a relação de confiança entre o Espírito e Deus.
“Que está em secreto…” recorda que a verdadeira espiritualidade não depende de testemunhas.
“Teu Pai, que vê em secreto…” mostra que Deus conhece a realidade íntima do ser, incluindo suas intenções.
“Te recompensará…” revela que a oração sincera não é inútil. Seus frutos podem aparecer como fortalecimento, esclarecimento, auxílio espiritual e transformação moral, ainda que não correspondam exatamente ao pedido formulado.
A oração que Jesus ensinou exige sinceridade
Depois de examinar a passagem, torna-se difícil considerá-la apenas como uma orientação sobre o local onde devemos orar.
Jesus está ensinando uma atitude espiritual.
Ele está dizendo, em essência, que existe uma relação com Deus que não precisa ser exibida, porque seu valor não depende da opinião dos homens.
O quarto pode ser o espaço físico onde encontramos silêncio, mas também pode representar aquele lugar íntimo onde deixamos de representar.
Ali podemos reconhecer que ainda temos muito a aprender.
Podemos admitir que existem sentimentos que precisamos transformar.
Podemos agradecer pelas oportunidades recebidas.
Podemos pedir forças sem exigir que a vida se adapte aos nossos desejos.
Podemos procurar compreender aquilo que ainda não conseguimos aceitar.
E podemos sair dali com um compromisso mais claro diante da própria existência.
Conclusão: o sentido espiritual de fechar a porta
As palavras de Jesus em Mateus 6:6 permanecem profundas porque tratam de uma necessidade que atravessa todas as épocas: a necessidade de encontrarmos um espaço em que possamos deixar de viver exclusivamente para o olhar dos outros.
Entrar no quarto não significa fugir da vida.
Fechar a porta não significa fechar-se para o mundo.
Orar em segredo não significa que a oração coletiva tenha menor valor.
O ensinamento aponta para algo mais essencial: a relação com Deus precisa alcançar uma região da consciência onde não exista preocupação com aparência, reconhecimento ou aprovação.
À luz da Doutrina Espírita, esse recolhimento pode tornar-se uma oportunidade de autoconhecimento e reforma íntima. O Espírito se coloca diante de Deus, mas também diante de si mesmo. Reconhece aquilo que já conseguiu transformar e percebe aquilo que ainda exige esforço.
Nesse sentido, a prece não deve ser avaliada apenas pela resposta imediata aos pedidos que fazemos. Seu valor pode estar na transformação silenciosa que produz naquele que ora.
Uma pessoa pode entrar no quarto pedindo que uma dificuldade desapareça e sair compreendendo que precisa de forças para enfrentá-la.
Pode entrar desejando que alguém mude e sair percebendo que também possui algo a modificar.
Pode chegar dominada pela revolta e sair com maior capacidade de refletir antes de agir.
Pode entrar sem compreender os acontecimentos de sua vida e sair sem todas as respostas, mas com uma disposição diferente para continuar caminhando.
Talvez seja esse um dos aspectos mais profundos da promessa de Jesus: o Pai que “vê em secreto” não ignora aquilo que acontece na intimidade do Espírito.
Deus conhece o esforço que ninguém percebe.
Conhece a luta que não contamos a ninguém.
Conhece o arrependimento que ainda não conseguimos expressar.
Conhece a vontade sincera de melhorar, mesmo quando ainda tropeçamos nas mesmas imperfeições.
E é justamente por isso que a oração não precisa ser uma demonstração de virtude.
Ela pode ser simplesmente verdadeira.
Quando a porta se fecha e não há mais ninguém para impressionar, resta aquilo que realmente somos.
É nesse momento que a oração pode deixar de ser apenas um conjunto de palavras e transformar-se em um encontro consciente com Deus.
Depois, a porta se abre.
A vida continua.
Os problemas continuam existindo.
As pessoas continuam sendo quem são.
As responsabilidades permanecem.
Mas o Espírito que retorna à vida depois de um verdadeiro momento de recolhimento pode carregar consigo algo que antes não possuía: uma compreensão mais clara de si mesmo, maior confiança na Providência e uma disposição renovada para fazer a sua parte.
O quarto, então, não é apenas o lugar onde nos escondemos do mundo durante alguns minutos. É o lugar onde aprendemos a não esconder de nós mesmos aquilo que precisamos transformar.
E talvez seja justamente aí que comece a verdadeira oração.
Referências doutrinárias para o estudo: O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulos XXVII — “Pedi e obtereis” e XXVIII — “Coletânea de preces espíritas”; O Livro dos Espíritos, questões relacionadas à prece, à ação dos Espíritos e à relação do Espírito com Deus.
