Existem encontros por acaso? O que a Doutrina Espírita revela sobre as pessoas que cruzam nosso caminho

Há encontros que parecem insignificantes quando acontecem e, anos depois, percebemos que mudaram alguma coisa em nossa existência.

Uma pessoa entra em nossa vida por uma circunstância aparentemente banal. Uma conversa acontece sem planejamento. Uma amizade começa sem qualquer intenção especial. Às vezes, porém, sentimos diante de alguém uma simpatia difícil de explicar; outras vezes, uma antipatia surge antes mesmo que conheçamos verdadeiramente aquela pessoa.

Costumamos chamar tudo isso de acaso.

Mas Allan Kardec fez exatamente essa pergunta aos Espíritos.

Em O Livro dos Espíritos, questão 388, perguntou se os encontros de determinadas pessoas, geralmente atribuídos ao acaso, não poderiam resultar de alguma relação de simpatia. A resposta é breve, mas profundamente sugestiva:

“Entre os seres pensantes há ligações que ainda não conheceis.”

Os Espíritos acrescentam que o magnetismo seria o “piloto” de uma ciência que o homem compreenderia melhor no futuro.

A Doutrina Espírita, portanto, não nos autoriza a considerar todos os encontros como acontecimentos fortuitos sem qualquer significado. Mas também não permite que transformemos cada pessoa que surge em nossa vida em personagem de uma suposta história predeterminada.

Entre essas duas posições existe uma compreensão muito mais profunda.

Nem todo encontro é reencontro

Existe uma ideia bastante difundida no meio espiritualista segundo a qual, quando sentimos uma forte afinidade por alguém, necessariamente já convivemos com essa pessoa em outra existência.

Kardec não sustenta isso.

Na questão 387 de O Livro dos Espíritos, pergunta se a simpatia tem sempre como princípio um conhecimento anterior. A resposta é clara:

“Não. Dois Espíritos que se harmonizem atraem-se naturalmente um ao outro, sem que se tenham conhecido como homens.”

Essa passagem merece atenção porque corrige uma interpretação muito comum.

Podemos reencontrar alguém com quem já tivemos vínculos em outra existência? Sim.

Mas também podemos encontrar pela primeira vez um Espírito cuja maneira de pensar, sentir e compreender a vida esteja em harmonia com a nossa.

A afinidade espiritual, portanto, não depende necessariamente de uma história anterior.

O que existe é algo mais amplo: a atração entre Espíritos que apresentam determinada sintonia.

É por isso que duas pessoas podem se conhecer há poucos dias e conversar como se fossem amigas há décadas. Não precisamos inventar uma narrativa de vidas passadas para explicar toda afinidade. Às vezes, duas almas simplesmente se encontram em determinado ponto de sua caminhada evolutiva.

O Espiritismo não ensina a existência de uma “alma gêmea” predestinada

Esse ponto é particularmente importante.

A ideia romântica de que cada pessoa possui uma única alma destinada a ela não corresponde ao ensinamento de O Livro dos Espíritos.

Na questão 298, Kardec pergunta se existem almas predestinadas desde sua origem a uma união particular e fatal.

A resposta dos Espíritos é inequívoca:

“Não; não há união particular e fatal de duas almas.”

E explicam que a verdadeira união é a de todos os Espíritos, em graus diferentes, conforme o nível de perfeição que alcançaram.

Isso muda completamente a maneira de compreender os relacionamentos.

Não estamos diante de uma existência em que Deus teria separado duas metades destinadas a se encontrar obrigatoriamente.

Estamos diante de Espíritos em evolução, que estabelecem vínculos conforme suas afinidades, suas escolhas, seus compromissos e suas necessidades de aprendizado.

O sentimento verdadeiro pode existir.

A afinidade pode ser profunda.

Uma relação pode atravessar várias existências.

Mas isso não significa fatalidade.

E onde não existe fatalidade, existe liberdade.

O encontro pode estar relacionado à reencarnação

Se não há uma predestinação absoluta dos encontros, isso não significa que a reencarnação não tenha influência sobre eles.

Ao contrário.

A Doutrina Espírita apresenta a existência corporal como uma etapa de progresso e permite compreender que muitos Espíritos retornam juntos à experiência terrena.

Na questão 258 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta se o Espírito, antes de uma nova existência, tem consciência e previsão do que lhe acontecerá na vida terrestre.

A resposta afirma que o próprio Espírito escolhe o gênero de provas por que deverá passar, e nisso consiste o seu livre-arbítrio.

Isso não significa que o Espírito determine minuciosamente cada acontecimento da futura existência.

Há uma diferença enorme entre escolher provas e escrever antecipadamente todos os acontecimentos da vida.

O Espírito pode preparar determinadas experiências, assumir compromissos e aceitar determinadas condições, mas continuará responsável pelas decisões que tomar quando estiver encarnado.

Por isso, não devemos olhar para uma relação difícil e imediatamente concluir:

“Essa pessoa foi colocada em minha vida porque eu tinha uma dívida com ela.”

Pode ser uma prova.

Pode ser uma oportunidade de aprendizado.

Pode ser uma consequência de escolhas anteriores.

Pode simplesmente ser uma circunstância da existência na qual teremos liberdade para decidir como agir.

A Doutrina Espírita é muito mais prudente do que as explicações prontas que frequentemente oferecemos para os acontecimentos.

Existem famílias formadas por Espíritos ligados anteriormente

É aqui que o ensinamento espírita sobre os encontros ganha uma dimensão ainda mais profunda.

No capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec explica que, no mundo espiritual, os Espíritos formam grupos ou famílias unidos pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações.

E acrescenta que esses Espíritos muitas vezes seguem uns aos outros na encarnação, reunindo-se novamente numa mesma família ou círculo para trabalharem pelo progresso mútuo.

Essa afirmação ajuda a compreender por que determinados vínculos familiares parecem possuir uma profundidade que ultrapassa os laços biológicos.

Pais e filhos podem já ter convivido em outras posições.

Irmãos podem ter sido amigos.

Amigos podem ter pertencido à mesma família espiritual.

Pessoas que hoje desempenham papéis completamente diferentes podem ter uma história muito antiga.

A posição que ocupamos uns diante dos outros muda de existência para existência.

O vínculo espiritual pode permanecer.

Por isso, a família, para o Espiritismo, não é apenas uma reunião de corpos unidos pela hereditariedade.

É também um espaço de experiências entre Espíritos.

Mas nem todos os que nascem juntos são Espíritos afins

Essa constatação talvez seja ainda mais importante.

Se todas as famílias fossem compostas apenas de Espíritos perfeitamente simpáticos entre si, muitas das dificuldades familiares permaneceriam sem explicação.

Kardec aborda diretamente essa questão.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo IV, item 19, explica que Deus permite que Espíritos antipáticos ou estranhos entre si reencarnem numa mesma família, com objetivos de prova para uns e de progresso para outros.

Essa passagem oferece uma chave para compreender relações familiares difíceis.

Às vezes, duas pessoas não estão juntas porque possuem grande afinidade espiritual.

Estão juntas porque a convivência representa uma oportunidade.

Um precisa aprender a perdoar.

Outro precisa aprender a respeitar.

Um precisa vencer o orgulho.

Outro precisa abandonar a agressividade.

Um pode precisar aprender a servir.

Outro, a receber.

O encontro, nesse caso, não é uma recompensa.

É uma possibilidade de crescimento.

E talvez seja justamente por isso que alguns dos nossos maiores ensinamentos venham de pessoas com quem tivemos enorme dificuldade de conviver.

A antipatia também possui explicação na Doutrina Espírita

Kardec perguntou aos Espíritos de onde procede aquela repulsão que algumas pessoas sentem umas pelas outras à primeira vista.

A resposta, na questão 389, é que podem ser Espíritos antipáticos que se percebem e se reconhecem sem sequer conversar.

Mas Kardec imediatamente investiga se essa antipatia é necessariamente sinal de maldade.

A resposta é não.

A antipatia pode simplesmente nascer da diversidade de pensamentos.

E, à medida que os Espíritos evoluem, essas divergências tendem a desaparecer.

Isso é essencial.

Não devemos transformar nossa primeira impressão em julgamento moral.

Sentir antipatia por alguém não significa que aquela pessoa seja má.

E sentir simpatia por alguém não significa que ela seja moralmente superior.

Nossa percepção pode ser influenciada por experiências anteriores, tendências pessoais, diferenças de caráter e, segundo a Doutrina Espírita, também por relações espirituais que desconhecemos.

Mas o julgamento definitivo pertence ao campo da razão e da observação, não à impressão momentânea.

O que fazemos com os encontros é mais importante do que descobrir sua origem

Existe uma curiosidade humana quase irresistível:

“Quem essa pessoa foi para mim em outra vida?”

Talvez essa não seja a pergunta mais importante.

Mesmo que soubéssemos que alguém foi nosso irmão, nosso filho, nosso amigo ou nosso adversário em uma existência anterior, isso não resolveria a questão essencial.

Como estamos tratando essa pessoa agora?

A reencarnação nos devolve ao presente.

O passado pode explicar determinadas tendências, mas é no presente que construímos nosso futuro.

Por isso, o Espiritismo não nos convida a investigar obsessivamente o passado das relações. Ele nos convida a transformar as relações atuais.

Se uma pessoa desperta em nós ciúme, precisamos examinar o ciúme.

Se desperta orgulho, precisamos examinar o orgulho.

Se desperta compaixão, precisamos transformar essa compaixão em atitude.

Se desperta ressentimento, precisamos trabalhar o ressentimento.

O verdadeiro sentido espiritual de um encontro não está apenas naquilo que ele revela sobre o outro, mas principalmente naquilo que revela sobre nós.

Há encontros que nos ferem

Nem todo encontro produz felicidade.

Algumas pessoas chegam e deixam marcas dolorosas.

Existem amizades que terminam de maneira cruel, amores que se desfazem, familiares que nos decepcionam e pessoas que nos fazem experimentar sentimentos que preferíamos jamais conhecer.

O Espiritismo não pede que neguemos essa dor.

Pede que não permaneçamos presos a ela.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar da reconciliação e do perdão, Kardec apresenta uma visão que não confunde perdão com ingenuidade.

Perdoar não significa devolver ao outro a mesma confiança.

Não significa permitir novamente que alguém nos faça mal.

Significa retirar do coração o desejo de vingança e interromper a cadeia de ressentimento.

Isso possui uma consequência espiritual profunda.

Podemos afastar-nos de alguém sem odiá-lo.

Podemos reconhecer o mal sem desejar o mal.

Podemos estabelecer limites sem transformar a distância em vingança.

Às vezes, a forma mais elevada de encerrar uma relação é simplesmente não carregar o inimigo conosco.

Há encontros que atravessam a morte

Se os vínculos espirituais não dependem exclusivamente do corpo, a morte não representa necessariamente o fim das relações.

Kardec explica, no capítulo IV de O Evangelho segundo o Espiritismo, que a reencarnação não destrói os laços de família; ao contrário, permite compreender como Espíritos que se amam podem reencontrar-se em diferentes existências.

Isso não significa que todas as pessoas que amamos estejam destinadas a renascer sempre conosco.

Significa algo mais profundo: o Espírito não está limitado à existência corporal.

Os vínculos verdadeiros podem sobreviver à morte porque aquilo que os fundamenta não é apenas o corpo.

É a afeição.

É a simpatia.

É a comunhão de pensamentos.

É o progresso realizado em conjunto.

Por isso, quando alguém que amamos parte, a saudade não precisa ser interpretada como prova de que tudo terminou.

A separação física é real.

A dor também.

Mas, para o Espiritismo, nenhuma delas constitui o fim da existência do Espírito.

O encontro também é uma responsabilidade

Existe, porém, um aspecto que frequentemente esquecemos.

Passamos muito tempo perguntando:

“Por que determinada pessoa apareceu na minha vida?”

Mas raramente perguntamos:

“Por que eu apareci na vida dela?”

Essa segunda pergunta talvez seja espiritualmente mais exigente.

Porque não sabemos o efeito que produzimos nas pessoas.

Uma palavra pode ferir durante anos.

Um gesto de bondade pode ser lembrado durante décadas.

Uma orientação pode mudar uma decisão.

Um pedido de desculpas pode devolver dignidade a alguém.

Uma presença pode aliviar uma solidão que desconhecemos.

Somos, também nós, encontros na existência de outras pessoas.

E isso nos torna responsáveis.

Nem todo encontro precisa durar

A Doutrina Espírita não ensina que devemos conservar indefinidamente todas as relações.

Há pessoas que caminharão conosco por muito tempo.

Outras permanecerão apenas durante determinado período.

Algumas terão papel decisivo.

Outras serão apenas uma experiência passageira.

O valor espiritual de um encontro não pode ser medido exclusivamente pela sua duração.

Há relações longas que pouco acrescentam.

Há encontros breves que deixam profundas consequências.

O importante é aquilo que conseguimos aprender, transformar e oferecer.

Kardec mostra que os Espíritos ligados por verdadeira simpatia tendem a conservar suas afeições, enquanto vínculos sustentados apenas por causas físicas ou interesses materiais podem desaparecer com essas causas. O Livro dos Espíritos, questão 297, relaciona a durabilidade das afeições à verdadeira simpatia espiritual.

Tal ensinamento nos convida a distinguir afeição de posse.

Nem todo relacionamento intenso é espiritualmente profundo.

Às vezes, o que chamamos de amor é apenas necessidade.

Às vezes, o que chamamos de destino é apenas apego.

E às vezes descobrimos que a verdadeira afeição sabe respeitar a liberdade do outro.

Então, existem encontros por acaso?

A resposta espírita exige equilíbrio.

Existem acontecimentos cuja causa imediata desconhecemos.

Mas Kardec registra que existem entre os seres pensantes ligações que ainda não compreendemos e admite que determinados encontros, normalmente atribuídos ao acaso, podem estar relacionados a vínculos de simpatia.

Ao mesmo tempo, a Codificação rejeita a ideia de que toda afinidade seja obrigatoriamente resultado de uma existência anterior e rejeita também a existência de uma união fatal entre duas almas.

Há, portanto, uma verdade mais sóbria e mais bela.

Não precisamos transformar cada encontro em mistério para reconhecer que a vida espiritual possui relações que ainda não compreendemos completamente.

Algumas pessoas chegam porque já caminharam conosco.

Outras chegam porque possuem conosco uma afinidade que nasceu agora.

Algumas chegam para ajudar.

Outras para serem ajudadas.

Algumas para oferecer afeto.

Outras para provocar em nós uma transformação que não aconteceria de outra maneira.

E há aquelas que chegam para nos ensinar uma das lições mais difíceis da existência: saber partir sem odiar.

Talvez nunca saibamos por que encontramos determinada pessoa.

Talvez somente depois da morte compreendamos a extensão de certos vínculos.

Mas existe algo que podemos saber agora.

Toda pessoa que cruza nosso caminho é um Espírito em evolução, como nós.

E isso já deveria modificar profundamente a maneira como nos encontramos.

Porque, quando enxergamos apenas o acaso, vemos acontecimentos.

Quando começamos a compreender a imortalidade, vemos Espíritos.

E quando compreendemos verdadeiramente a Doutrina Espírita, percebemos que a pergunta mais importante talvez não seja descobrir quem aquela pessoa foi para nós antes, mas decidir o que seremos capazes de oferecer a ela agora.

No fim das contas, é no presente que o Espírito escreve aquilo que um dia chamará de passado.

E talvez alguns dos encontros que hoje parecem inexplicáveis sejam justamente as oportunidades que a vida nos ofereceu para aprender a ser um pouco melhores do que éramos antes de encontrá-los.

Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.

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